MSN Messenger
Se você me pedir uma tese sobre os anos 2000 no Brasil, a verdade é que, para encapsular aquela década inteira, basta um print do MSN: a lista de contatos como um corredor aceso, um nick com “🎵” e símbolos demais, um emoticon cafona no meio da frase, alguém “ocupado” dramaticamente, e aquele azul do Windows XP segurando o mundo na unha. Ou, então, um vídeo de 35 segundos que compila os sons e efeitos sonoros do MSN.
E quase sempre a saudade funciona do mesmo jeito. Muita gente acha que sente falta do MSN, mas o que aperta mesmo é outra coisa: a época em que amizade tinha tempo, em que a internet tinha porta de entrada, em que estar online era um evento, e em que a gente ainda estava aprendendo a existir sem tanta armadura. O MSN virou símbolo porque foi cenário de rotina, de flerte, de insegurança, de pequenas crueldades e pequenas glórias. O programa era só o palco. A peça era a gente.
Pra quem não viveu, dá pra explicar sem mistério: MSN Messenger era um mensageiro instantâneo da Microsoft, tipo um precursor do WhatsApp, só que morando no computador. Na época, isso foi revolucionário porque conversa em tempo real ainda parecia magia doméstica. Você abria, logava, e de repente tinha gente ali, disponível, acendendo e apagando na sua frente. E o detalhe que hoje faz falta: disponibilidade ainda era uma escolha. Você entrava e saía. Você não carregava a vida social no bolso 24 horas por dia.
A sociologia brasileira disso é o que dá corpo pra nostalgia. O MSN não dominou aqui porque o Brasil era futurista, mas porque o Brasil estava entrando na internet em ondas, do jeito que dava. Um pouco em casa, um tanto na escola, e muito na lan house, onde a internet era serviço pago por hora e ficar online era um evento social. E quando, em 2014, o celular passou o microcomputador como principal meio de acesso domiciliar à internet, a mudança ficou inevitável: o centro da vida social saiu do “programa do PC” e foi morar no bolso.
Por isso, antes de falar de recurso do MSN, tem que falar de lan house. Porque pra muita gente o MSN não era “no meu quarto”. Era “no meu bairro”. Era pagar por hora, sentar numa cadeira dura, com barulho de jogo e gente do lado, e ainda assim sentir que a conversa na sua janelinha era íntima e séria. Lan house foi inclusão digital com cara de improviso, mas também foi cenário afetivo. O MSN cresceu porque cabia na realidade técnica e social do país, e porque entregava convivência instantânea num tempo em que isso era novidade.
A estética do MSN também foi mudando, e isso muda a memória. Teve uma fase mais “Windows XP puro”, mais simples, mais cara de ferramenta que virou vida social sem querer. Depois, já na era Windows Live Messenger, ele foi ficando mais brilhante, mais “cheio”, com cara de produto tentando acompanhar a fome de presença das pessoas. E o Brasil, claro, empurrou essa estética pro exagero com amor: nicks estilizados, fontes coloridas, avatares, emoticons personalizados, winks enormes… um caos bonito, porque tinha personalidade demais pra caber num design limpo.
E aí entra a “caixa de brinquedos” do MSN, que era grande e fazia parte do charme sem precisar virar protagonista única. Tinha webcam e chamadas de vídeo, que naquele tempo eram meio futuristas e meio vergonhosas, mas inesquecíveis. Tinha winks e emoticons que viraram coleção e dialeto. Tinha o famoso “chamar atenção”: a janela tremia, fazia barulho. Era como se tivesse alguém chacoalhando o seu monitor por dentro. E tinha também um lado muito subestimado hoje: os joguinhos, que você abria dentro do MSN pra jogar com alguém enquanto conversava, como se amizade tivesse modo multiplayer. A própria Microsoft divulgava, lá atrás, jogos como Checkers, Bejeweled, Campo Minado e outros, dentro desse ecossistema.
E o status (online, ocupado, ausente, invisível) virou literatura cifrada: a gente não dizia “tô mal”, a gente virava frase. Não dizia “tô com saudade”, a gente colocava um verso de música e deixava o resto entender.
Quando o MSN começou a desaparecer, ele não morreu sozinho: ele foi substituído. Em 6 de novembro de 2012, a Microsoft confirmou que encerraria o Windows Live Messenger e integraria o serviço ao Skype, empurrando os usuários pra lá no começo de 2013. O Skype era forte em chamada e vídeo, mas não tinha o mesmo “chão” cotidiano do MSN. E, logo depois, veio a virada real: o WhatsApp, já nascido no mundo mobile, pegou um Brasil que tinha migrado o acesso pro celular e virou a camada básica da vida social. Não é exagero dizer que o app virou infraestrutura de conversa no país e que o Brasil é um dos maiores mercados dele.
Se bater aquela vontade real de reviver o MSN, tem um jeito, e funciona mesmo. Existe um projeto chamado Escargot, criado por fãs, que faz versões antigas do MSN voltarem a funcionar como nos velhos tempos. Você cria uma conta por lá, baixa o programa já adaptado e pronto: entra com seu login como se ainda estivesse em 2008. É claro que não é oficial, nem tem segurança de app moderno, mas pra matar a saudade, reencontrar um velho amigo ou só ver a interface de novo… já vale muito.
No fim, o MSN ficou grande demais pra caber no próprio nome porque ele foi o momento em que a internet deixou de ser só página e virou convivência. A gente sente saudade porque era uma internet que tinha começo, meio e fim. Você entrava. Você saía. Você esperava alguém aparecer. E isso fazia a vida social caber numa tarde, num computador, numa lista de contatos acendendo como céu. Hoje tem coisa demais, rápido demais, perto demais. O MSN era menos eficiente, mas era um lugar. E é desse lugar que a gente sente falta.

