segunda-feira, 30 de março de 2026

Clube Cheetos (2003)


O Clube Cheetos é, para mim, um caso quase perfeito de lost media brasileira. Tratava-se de um pequeno mundo virtual infantil feito no Brasil, provavelmente surgido lá pelas bandas de 2003, e que hoje sobrevive quase como fantasma: resto, lembrança e vestígio. Existe prova concreta de que ele foi um projeto real, ligado à marca Cheetos/PepsiCo, e não só uma alucinação coletiva; ao mesmo tempo, quase tudo o que permitiria recuperá-lo com nitidez parece ter se perdido pelo caminho.

Talvez a maneira mais intuitiva de localizar o que ele foi seja esta: o Clube Cheetos funcionava como uma espécie de Club Penguin brasileiro antes mesmo de o Club Penguin e o Habbo Hotel existirem. Com avatar, circulação por salas, minigames e uma estética de internet Flash muito específica, ele já encenava aqui no Brasil essa promessa infantil de “entrar num mundo” que depois ficaria mais famosa em outros universos virtuais. O Clube Cheetos era isso: um pequeno universo digital, brasileiro, colorido e original, que existiu o bastante para marcar uma geração e desapareceu o bastante para hoje parecer quase sonho.

O mais estranho no caso do Clube Cheetos é justamente a desproporção entre o quanto ele parece ter sido vivo para quem jogou e o quão pouco restou dele na internet aberta de hoje. Quando a gente vai procurar, encontra quase nada. Não há um vídeo no Youtube sequer, não há página na Wikipédia, não há uma documentação consistente que devolva esse mundo com a riqueza de detalhes que ele aparentemente tinha na experiência de quem esteve ali. O que existe são poucos rastros, algumas lembranças espalhadas, uma ou outra imagem, comentários de pessoas tentando confirmar umas às outras que aquilo foi real. E talvez seja isso que faça o Clube Cheetos parecer tão fantasmagórico hoje: ele não foi preservado como clássico, não foi relançado, não foi incorporado a uma memória digital estável. Ele quase evaporou.

Na prática, o núcleo inteiro dos vestígios rastreáveis do Clube Cheetos está resumido inteiramente ao portfólio da Zinios e a três threads de Reddit [1, 2 e 3] em que um punhado de pessoas se reconhece mutuamente na mesma lembrança. É quase nada. Um portfólio oficial e literalmente quinze pessoas (eu contei) conversando sobre isso no Reddit. E o mais curioso é que esse quase nada ainda basta para provar que o clube existiu: no site da Zinios, ele aparece descrito como um ambiente virtual infantil criado sob encomenda para a marca, com cenários, games, ilustrações e também o “Control Cheetos”, que centralizava as ações do jogador dentro do clube. É muito pouco para reconstruir aquele mundo, mas já o suficiente para tirá-lo do campo do delírio e colocá-lo no da memória mal preservada.

Era um jogo de enorme carisma e personalidade. Ele não tinha a aparência neutra de uma plataforma qualquer. Tinha uma cara muito específica, quase agressivamente específica. Era laranja, era exagerado, era muito Flash, muito anos 2000, muito Brasil. Tinha aquele tipo de visual que hoje pode soar cafona para quem vê de fora, mas que para quem viveu aquilo carrega uma textura emocional muito precisa. Não era só um produto tentando parecer divertido. Era uma tentativa de transformar uma marca em mundo, de pegar um imaginário infantil e condensá-lo num espaço digital onde você podia circular, reconhecer lugares, mexer no seu personagem e sentir, por alguns minutos ou por horas, que estava entrando num clubinho próprio.

Por isso a comparação com Club Penguin me parece tão certeira. Não porque o Clube Cheetos fosse idêntico, claro, mas porque ele oferecia aqui uma versão brasileira, mais precária, mais estranha, mais publicitária e muito menos polida daquela mesma promessa de sociabilidade infantil online. Se o Club Penguin viria a se tornar um ícone global desse tipo de experiência, o Clube Cheetos foi, para nós, uma espécie de protótipo nacional dessa lógica: um lugar digital para crianças, com avatar, circulação, pequenas interações e uma sensação muito clara de ambiente, de pertencimento e de rotina.

O que sobreviveu nas memórias das pessoas só reforça essa impressão. Não são lembranças genéricas do tipo “acho que joguei isso”. O que aparece, quando alguém comenta, são fragmentos pequenos demais para serem inventados com facilidade: a customização do boneco, as salas, a praia, a música, o skate, certas interações bobas, detalhes de interface, efeitos sonoros específicos. Esse tipo de lembrança diz muito, porque mostra que o Clube Cheetos não era só uma peça publicitária que passava pelo olhar da criança e ia embora. Ele deixava marcas concretas, quase táteis. E isso ajuda a explicar por que o sumiço dele causa esse desconforto estranho. É como se uma parte muito específica da infância digital brasileira tivesse perdido o próprio corpo e sobrevivido só como eco.

Também tem algo de muito simbólico no fato de ele ser um lost media tão brasileiro. Quando a gente pensa em internet antiga, muitas vezes a memória coletiva acaba girando em torno de coisas mais globais, mais conhecidas, mais fáceis de arquivar e revisitar. O Clube Cheetos pertence a uma outra camada, a de uma internet nacional mais improvisada, mais descartável e, ao mesmo tempo, mais íntima. Era uma internet em que microsites, promoções, portais infantis e experiências em Flash podiam ocupar um espaço enorme no imaginário de quem era criança, sem que ninguém se preocupasse de verdade em preservar aquilo para o futuro. Na época, talvez parecesse só mais uma ação de marca. Hoje, olhando para o vazio que ficou, dá para perceber que esses pequenos mundos eram mais importantes do que pareciam.

É por isso que o Clube Cheetos me interessa tanto hoje, talvez até mais do que interessaria se ele tivesse sido perfeitamente preservado. Se houvesse gameplay completo, arquivos intactos, salas restauradas e documentação abundante, ele seria um objeto nostálgico delicioso de revisitar, claro, mas talvez menos assombrado. Do jeito que está, ele se transformou em outra coisa: um fantasma bem brasileiro da internet antiga, um desses casos em que a ausência passa a ser parte essencial do fascínio. A gente sabe que existiu e encontra o suficiente para comprovar isso, mas nunca consegue recuperar o todo. Fica sempre essa sensação de estar tentando juntar um corpo a partir de meia dúzia de ossos brilhando no escuro.

No meu cenário ideal, a Zinios apareceria um dia com mais material guardado desse projeto. Bastava uma pasta esquecida com concept arts, telas, arquivos internos, trechos navegáveis, documentos de produção, qualquer coisa que ajudasse a reconstruir melhor esse pequeno mundo perdido. Mais sonhador ainda seria imaginar uma espécie de versão legado, uma edição de preservação mesmo, relançada não como grande produto novo, mas como gesto de memória, para que quem viveu aquilo pudesse ao menos entrar de novo e ver um pedaço do que existiu. Só que aí a fantasia já bate na parede da realidade: uma coisa dessas provavelmente dependeria da aprovação da Elma Chips e dos detentores dos direitos vinculados à marca e ao projeto, e isso parece bastante improvável. Justamente por isso o desejo fica ainda mais melancólico. Não é um sonho impossível em termos técnicos; é um sonho improvável em termos corporativos, que é bem diferente e um pouco mais triste.

No fim, o que sobra do Clube Cheetos é essa combinação muito específica de prova e ausência, de certeza e névoa. Ele não é uma lenda inventada pela memória, porque deixou rastros reais demais para isso. Mas também não é um objeto preservado o suficiente para que a gente o recupere com tranquilidade. Ele ficou preso nesse meio-termo esquisito, onde a infância reconhece imediatamente e o arquivo falha quase por completo. Talvez por isso ele seja um exemplo tão bom do que a expressão lost media realmente pode significar quando sai do sensacionalismo e encosta em algo mais humano. Não é só uma mídia perdida. É um pedaço real da vida de muita gente que ficou grande demais na memória e pequeno demais nos vestígios.

E talvez seja essa a imagem mais sincera do Clube Cheetos hoje: não apenas um jogo que sumiu, mas um pequeno mundo virtual brasileiro — uma espécie de Club Penguin laranja, torto e muito anos 2000, nascido aqui — que existiu o bastante para marcar uma geração e desapareceu o bastante para parecer sonho.