Pixcodelics (2005)
Eu tinha uma memória que parecia mais uma alucinação do que uma lembrança. Durante anos, procurei na internet por um desenho estranho que eu tinha visto quando era criança, mas nunca encontrava nada que batesse completamente. Eu lembrava que era em CGI, com renderização 3D, que os personagens viviam dentro da internet, que havia alguma coisa relacionada a hackers, que existia um personagem que a minha cabeça guardou como uma caveira, e também um homem de bigode asiático, que provavelmente era o vilão. Também tinha a impressão de que passava no Cartoon Network, talvez em algum horário esquisito, talvez de madrugada, provavelmente perdido entre uma coisa e outra da programação. O problema é que essas lembranças eram vagas demais para virar uma busca decente. Eu digitava combinações como “desenho 3D internet Cartoon Network cyber hackers caveira”, e nada parecia levar a lugar nenhum. Aos quase 30 anos, finalmente descobri que não era alucinação: esse desenho existiu, se chamava Pixcodelics, e eu provavelmente o assisti quando tinha 9 anos.
Existe um tipo muito específico de alegria em encontrar uma coisa assim. Não é só rever algo antigo e sentir saudade. É quase uma absolvição da própria memória. Durante muito tempo, fiquei com a sensação de que talvez eu tivesse inventado esse desenho, ou misturado pedaços de outros programas, jogos e vinhetas em uma imagem falsa. Isso acontece muito com memórias de infância, porque criança não arquiva as coisas como um adulto arquivaria. Ela não guarda estúdio, ano, sinopse, país de origem e grade de exibição. Ela guarda uma sensação de tela ligada, uma cor, um rosto esquisito, uma palavra que parecia importante. No meu caso, o que ficou foi essa visão de um desenho digital, meio torto, meio cyber, com uma internet que parecia habitável. Quando o nome Pixcodelics apareceu, foi quase um reencontro da criança que fui aos 9 anos com a pessoa que me tornei aos 29.
Depois que encontrei o nome, fui pesquisar. Pixcodelics foi uma produção brasileira criada por Marco Alemar e Caio Mário Paes de Andrade, produzida pela MoP Brasil Digital e exibida originalmente no Cartoon Network América Latina em 2005. A série teve 65 episódios ao todo, curtinhos, com duração aproximada de cinco a seis minutos cada. A história se passava em Lowpolys, uma cidade dentro do mundo da internet, onde Pix, Nerd, Hack e Mary Chat enfrentavam os planos do Dr. Ping e de seu assistente Katslock. Só essa descrição já parece uma cápsula perfeita de 2005. Os nomes têm aquele sabor de época em que “chat”, “hack”, “ping” e “arroba” ainda pareciam palavras mágicas, como se cada termo técnico pudesse virar personagem de desenho animado. E virou.
Um dos detalhes mais interessantes da pesquisa veio quando encontrei um post no Instagram de um dos criadores, em que ele comenta a trajetória da série. Pelo relato dele, embora Pixcodelics tenha ido ao ar, originalmente, no Cartoon Network América Latina, depois a série circulou também por outros países, como Disney-Jetix Japão, Animania USA e TV estatal da Suécia. Esse tipo de detalhe muda bastante a leitura. O inglês dentro do desenho (nas telas de computador, por exemplo) não torna a série menos brasileira; pelo contrário, revela uma produção brasileira que já parecia pensada para dialogar com uma ideia internacional de internet. A gente usava computador em casa, em lan house, em escola, em casa de primo, mas a superfície da rede vinha cheia de termos como login, password, chat, download, file, spam, error. Mesmo quando a experiência era brasileira, a internet parecia falar uma língua meio importada. Em Pixcodelics, essa sensação aparece quase sem filtro: era um desenho brasileiro sobre um mundo digital que, por natureza, já parecia atravessar fronteiras.
A premissa também ficou mais curiosa quando li o próprio Marco dizendo que a série tratava de um futuro pacífico, tornado possível pelo acesso amplo à informação pela internet, até que um cientista do mal inventa uma máquina do tempo e volta ao passado para tentar destruir a rede com spams, malwares e fake news. Segundo ele, eles já falavam disso em 2004. Essa informação dá ao desenho uma camada inesperada, porque hoje esses temas parecem cansativos de tão presentes, mas naquela época ainda pertenciam a um imaginário mais novo, meio educativo, meio futurista, meio aventura infantil. A internet ainda podia ser vista como promessa de conhecimento e, ao mesmo tempo, como território ameaçado por vírus, golpes, manipulação e sabotagem. Pixcodelics pegou essa tensão e transformou em desenho animado.
A estética é uma parte enorme do fascínio. Pixcodelics era feito em CGI e tinha personagens inspirados em letras, números, símbolos, emoticons e elementos visuais de computador. Marco Alemar conta que os personagens eram feitos das letras dos teclados e que essa linguagem acabou dando origem a um produto transmídia: o game Cosmopax, que ficou por alguns anos no portal do UOL e reuniu milhares de jogadores. (Inclusive, agora em 2026 eles estão reabrindo o jogo!) Essa ligação explica por que a minha lembrança parecia misturar desenho, internet, jogo, mundo virtual e avatar. Pixcodelics não apenas falava de internet; ele tentava parecer feito da matéria visual da internet antiga, e essa matéria depois continuou viva em outra forma, dentro de um mundo virtual brasileiro.
Visto hoje, o 3D tem uma rigidez evidente. Os corpos parecem duros, os frames eram super lagados, os cenários têm uma geometria simples, os movimentos carregam aquele orgulho meio ingênuo de uma época em que ser 3D já era, por si só, uma novidade visual. Ainda assim, essa estranheza não me incomoda. Ela faz parte do historicidade da coisa. O desenho tem cara de CD-ROM educativo que tomou consciência, de mascote de portal antigo, de vinheta perdida entre um episódio de Cartoon Network e uma propaganda de brinquedo. É uma estética que envelheceu de um jeito muito próprio, porque guarda uma imagem de como a internet era imaginada antes de virar celular, aplicativo e feed infinito, esses pesadelos pós-2010.
E aqui entra a parte que mais me interessa. Pixcodelics não é exatamente uma lost media, porque existem episódios no YouTube, materiais preservados no Internet Archive e registros suficientes para provar sua existência. (Ainda bem!) Mesmo assim, ele tem uma força de “quase lost media” brasileiro, tal como Coelho Sabido. Não está perdido do ponto de vista técnico, mas ficou perdido na memória coletiva. Ele passou, marcou algumas crianças, sumiu do centro da conversa e virou uma lembrança difícil de explicar. É o tipo de desenho que não aparece facilmente quando alguém fala de Cartoon Network nos anos 2000. As pessoas lembram de As Meninas Superpoderosas, O Laboratório de Dexter, Coragem, o Cão Covarde, KND: A Turma do Bairro, Billy e Mandy. Já Pixcodelics ficou numa camada mais escondida da lembrança, como se tivesse sido salvo num setor danificado do HD cultural brasileiro. Antes de reencontrá-lo, para mim, Pixcodelics existia assim: não como clássico, mas como fantasma, como memória alucinada.
Esse lugar de fantasma tem muito a ver com a própria experiência da TV por assinatura nos anos 2000. O Cartoon Network, para muita criança brasileira, não era apenas um canal. A gente passava tempo dentro da grade, vendo episódios, chamadas, curtas, vinhetas, intervalos, reprises, maratonas, desenhos famosos e coisas que apareciam do nada. Como Pixcodelics tinha episódios muito curtos, é fácil imaginar a série surgindo como fragmento entre outras atrações maiores, mesmo que houvesse um horário oficial de exibição. A memória infantil não organiza isso com precisão. Ela guarda a sensação de ter visto alguma coisa fora do comum. Anos depois, tentar explicar vira quase uma cena de fórum: “era um desenho 3D, acho que passava no Cartoon, eles moravam dentro da internet, tinha hacker, tinha uma caveira, tinha um cara de bigode”. Parece mentira. Mas era Pixcodelics.
Reassistir hoje também mostra que talvez a lembrança tenha sido mais forte do que o desenho em si. A narrativa é simples, o humor é infantil, o CGI acusa bastante a idade e alguns elementos parecem didáticos. Eu não diria que encontrei uma obra-prima escondida, nem acho que seja necessário forçar essa leitura para justificar o carinho. Algumas coisas importam por outro motivo. Pixcodelics importa porque guarda uma textura de época muito específica: a infância brasileira diante da internet antiga, a TV por assinatura como lugar de descobertas aleatórias, o CGI dos anos 2000 ainda tentando encontrar linguagem, a fantasia de que a internet era uma cidade cheia de portais, vilões, comandos e personagens. Nem toda memória marcante vem de algo perfeito. Às vezes, ela vem de algo estranho e peculiar o bastante para ficar.
E foi exatamente isso que aconteceu comigo. Aos 9 anos, eu vi aquele desenho e alguma coisa nele ficou. Não ficou a sinopse completa, não ficou o nome, não ficou sequer uma imagem confiável. Ficou uma atmosfera. Ficou a sensação de uma internet como lugar, de um vilão digital de bigode asiático, de personagens que pareciam saídos de símbolos de computador, de uma renderização 3D que dava ao desenho um ar meio inquietante. Por mais de vinte anos, essa lembrança ficou parecendo uma falha da minha própria memória. Agora, reencontrando Pixcodelics, eu percebo que a falha não era bem minha. Era o próprio desenho que tinha essa natureza de arquivo corrompido, de objeto brasileiro meio apagado, de quase-lost-media escondido à vista de todos.
No fim, o que me emociona é simples: eu achei. Achei o desenho que eu procurava há anos. Achei a cidade dentro da internet. Achei o Dr. Ping, o Hack, a Mary Chat, o Pix, o Nerd, o Katslock, todo aquele pequeno universo brasileiro em CGI que parecia ter escapado de um sonho digital de 2005. Pixcodelics talvez não seja um clássico injustiçado esperando consagração. Talvez seja algo mais modesto e mais bonito: um vestígio de uma época em que a internet ainda parecia misteriosa, em que a TV a cabo ainda podia esconder pequenas raridades na programação, e em que uma criança podia ver um desenho estranho aos 9 anos e passar mais de duas décadas tentando provar que ele não tinha sido inventado pela própria cabeça. Ele não é lost media. Mas é quase. E, para mim, esse quase já conta uma história inteira.

