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segunda-feira, 30 de março de 2026

Jelly Battle (2007)

Houve uma época em que os joguinhos de navegador eram, para muitas crianças, uma espécie de milagre doméstico. Nem todo mundo podia instalar jogos no computador de casa. Às vezes porque a máquina era fraca, às vezes porque os pais não deixavam, às vezes porque simplesmente não havia o jogo. Então, sites como Fliperama e, um pouco depois, Click Jogos, viravam a salvação. Bastava abrir o navegador e, de repente, havia ali um mundo inteiro de fases curtas, bonequinhos coloridos, explosões, sons irritantes e diversão imediata.

A verdade, porém, é que a maioria desses jogos era bem simplória. Muitos eram divertidos por cinco minutos e só. Outros pareciam mal-acabados, feios, improvisados, quase descartáveis. Isso nem chega a ser uma crítica injusta: fazia parte da própria lógica da Internet da época. Eram jogos rápidos, acessíveis, gratuitos, feitos para circular e sumir. Para a criançada, funcionava. Era o bastante. Mas justamente, por isso, alguns poucos títulos se destacavam de um jeito quase absurdo, como se tivessem saído de um patamar diferente de capricho. Jelly Battle era um deles.

Durante muitos anos, esse foi um daqueles nomes que ficaram presos numa área nebulosa da minha memória. Eu lembrava do jogo com nitidez afetiva, mas não conseguia encontrá-lo em lugar nenhum. E essa é uma sensação muito específica: você sabe que não inventou aquilo, sabe que aquilo existiu, lembra até a textura mental que ele tinha, mas a internet simplesmente não te devolve. Ela age como se aquela coisa nunca tivesse acontecido, feito delírio coletivo. Um pedaço da internet que parecia perdido.

O que sempre me marcou em Jelly Battle é que ele destoava da média dos jogos de navegador da época. Em meio a tanto jogo tosco e improvisado, ele parecia um show de design. Tinha identidade visual, carisma e uma beleza muito própria. E o mais curioso é que continua bonito até hoje: cores vivas, um 3D que convence, design surpreendente, um tabuleiro agradável de olhar. Era simples sem parecer pobre. Esse é um detalhe importante, porque há jogos simples que soam vazios. Jelly Battle, ao contrário, parecia concentrado. Sabia exatamente o que queria ser.

A jogabilidade fazia jus a isso. O jogo funcionava em rodadas rápidas, e cada turno te dava apenas alguns segundos para escolher sua próxima posição no tabuleiro, que era literalmente um teclado de computador. Isso criava uma tensão muito particular, porque você precisava pensar rápido. Não havia tempo para filosofar demais. Era necessário bater o olho, calcular minimamente o risco e decidir onde cair. E, se você não escolhesse uma nova posição a tempo, corria o risco de continuar exatamente onde estava, o que podia ser péssimo dependendo do que viesse a seguir.

É justamente aí que Jelly Battle se tornava tão bom. Ele entendia uma coisa que muitos jogos pequenos não entendem: limite e pressão, quando bem dosados, criam elegância. O jogador não precisava decorar sistemas complicados nem mergulhar em mecânicas gigantescas. Bastava olhar, reagir e pensar rápido. Só que esse “bastava” era enganoso, porque a graça estava em fazer isso sob pressão, em rodadas curtas, num tabuleiro que te obrigava a antecipar perigo, oportunidade e posicionamento. Era simples, mas não burro. Acessível, mas não raso.

Talvez seja por isso que ele tenha ficado tão gravado em mim. Porque não era apenas mais um passatempo de navegador. Era um jogo que, mesmo dentro daquele ecossistema improvisado da era Flash, transmitia uma sensação rara de acabamento. Parecia haver ali uma inteligência de design de verdade. E isso, para quem cresceu no meio daqueles catálogos infinitos de browser games, fazia diferença. Às vezes a gente não tinha linguagem para formular isso quando era criança, mas sentia. Sentia quando um jogo era só um quebra-galho e sentia quando ele era especial. Jelly Battle, para mim, sempre foi claramente da segunda categoria.

Passei anos tentando achar Jelly Battle de novo, e só em 2026 finalmente consegui reencontrá-lo no Flashpoint, um projeto comunitário de preservação que resgata jogos e animações da velha internet antes que desapareçam de vez. Foi graças a ele que consegui jogar Jelly Battle outra vez, já adulta. E, se você também quiser passear por esse cemitério vivo da web antiga, pode baixar o Flashpoint clicando aqui.

Reencontrá-lo agora também me fez pensar numa coisa maior do que ele próprio. Muita gente fala da internet antiga como se ela fosse apenas uma estética: as cores, os sites feios, os botões brilhantes, o Flash, os menus antigos. Mas a internet antiga também era um habitat. Ela abrigava coisas concretas, experiências inteiras, pequenas obras que existiam de verdade e que, em muitos casos, simplesmente desapareceram. Não desapareceram no sentido poético. Desapareceram mesmo. Saíram do ar, perderam compatibilidade, ficaram presas em tecnologias mortas (em especial o Flash Player), dependeram de servidores que deixaram de existir. Aquilo que parecia banal de repente se transforma em peça de museu nostálgico.

Talvez esse seja o aspecto mais bonito do reencontro. Não foi só voltar a jogar um jogo antigo. Foi perceber, de maneira muito concreta, que parte da nossa memória digital depende hoje de preservação. Depende de alguém ter guardado, catalogado, resgatado e tornado acessível de novo. Durante muito tempo, a internet vendeu a ilusão de que tudo o que entra nela fica para sempre, mas isso nunca foi verdade. Muita coisa ficou pelo caminho. Muita coisa evaporou com uma facilidade brutal. E os jogos de navegador, sobretudo os da era Flash, são talvez um dos melhores exemplos disso.

Por isso reencontrar Jelly Battle teve um gosto tão específico. Não foi apenas uma nostalgia vaga dos anos 2000, nem aquela idealização preguiçosa de que tudo era melhor antes. Foi uma lembrança mais precisa do que isso. Foi lembrar que, no meio de tantos joguinhos simplórios que salvavam a infância de quem não podia instalar quase nada, existiam pequenas joias. Coisas realmente caprichadas, visualmente bonitas, gostosas de jogar e inteligentes no próprio limite. Coisas que mereciam ter sido lembradas mais do que foram.

Clique na imagem acima para conferir a gameplay

Jelly Battle, para mim, é uma dessas pequenas joias. Um jogo de navegador simples, sim, mas de um tipo de simplicidade rara: aquela que já nasce bem resolvida. Aquela que não precisa exagerar para ser memorável. Aquela que entende que um bom design, uma boa dinâmica e alguns segundos de tensão por rodada já bastam para criar uma experiência inteira. No fim das contas, foi muito bonito encontrá-lo de novo, porque eu não reencontrei só um jogo. Reencontrei também uma parte daquela internet antiga em que tanta coisa parecia provisória, mas algumas experiências grudavam na gente para sempre. Talvez esse seja o destino mais curioso de certos jogos: passarem anos sumidos, quase mortos, só para um dia voltarem e provar que ainda estavam vivos dentro da memória de alguém.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Mortal Kombat 4 (PS1)

Alguns jogos envelhecem bem. Outros azedam. Mas tem aqueles que desafiam qualquer categoria, como uma fita VHS esquecida no painel de um carro sob o sol: derretida, esquisita, mas ainda brilhando por dentro. Mortal Kombat 4 é um desses. Um jogo que parece ter sido feito sem a menor intenção de durar, e talvez por isso mesmo tenha sobrevivido – não nos rankings, mas em algum canto alternativo da memória.

Nunca joguei MK4 de verdade. Nunca tive o disco, nem o console. O que eu tive foi um amigo – o único com um PS1 à época – e o privilégio de assistir de fora. Sentada no chão da sala dele, pernas cruzadas, cabeça meio torta, via tudo como quem observa uma janela pro futuro. Porque até então minha referência era outra: MK3 Ultimate e suas versões de fliperama, todas ainda grudadas naquela estética 2D, sombria e pixelada, meio teatro de sombras, meio filme de terror. E aí, do nada, aquilo virou outra coisa. Os personagens ganharam volume, mas pareciam modelados em barro seco. Personagens novos que eu nunca tinha visto e cores bem curiosas. Hoje, quando revisito MK4, não vejo só um jogo. Vejo uma cápsula do tempo: tosca, falha, mas vibrando.

MK4 flertou, pela primeira vez na franquia, com o 3D. MK4 foi o primeiro MK a trocar os antigos sprites digitalizados por modelos poligonais, mergulhando de vez numa estética tridimensional. Mas esse 3D não era total: os combates ainda aconteciam em linha reta, com um botão que permitia um leve desvio lateral, mais performático do que prático. Ainda assim, algo mudou. Pela primeira vez, o jogo dava sinais de profundidade: os personagens não pareciam mais colados no fundo, e o espaço entre eles ganhava volume, mesmo que simbólico. Era uma ilusão tátil de avanço, como se o cenário respirasse em uma dimensão um pouco maior que a do 2D puro.

E com isso, veio também uma tentativa de reinventar a própria mitologia da série. Pela primeira vez, o vilão não era um brutamonte qualquer. Era um deus caído. Shinnok trazia uma vilania sofisticada e divina. Era, afinal,  uma deidade corrompida, gananciosa e que se achava "por direito" de conquistar tudo. Um ex-Elder God, exilado, ressentido, conspirando em silêncio. Sua presença transformava o jogo numa espécie de drama metafísico. Como se o Mortal Kombat tivesse saído da arena e escorregado pra dentro de um culto.

Mas o eixo narrativo verdadeiro era Quan Chi. Primeiro jogo em que ele aparece jogável, e já parecia maior que a própria tela. Pálido como osso, olhos vermelhos, movimentos secos e elegantes, e aquela aura de quem manipula os fios por trás da cortina. Ele não só libertou Shinnok do Submundo, mas costurou tudo ao redor com astúcia e trapaça. Não era só vilão, era cérebro. Uma espécie de Maquiavel necromante, operando no campo da estratégia. Enquanto os inimigos anteriores eram soco e magia bruta, Quan Chi era diplomacia e ilusão. E esse deslocamento de força pra inteligência mudou o tom inteiro da lore do jogo, ainda que momentaneamente.

Mesmo tropeçando nos aspectos técnicos, MK4 conseguiu montar um panteão que fazia sentido dentro da sua própria estranheza. Mas era um panteão instável, quase improvisado. Os novos personagens surgiam como figuras em busca de um lugar, ideias ainda meio soltas tentando se fixar no caos. Havia algo de inacabado neles – como se tivessem sido esboçados com pressa, sem tempo de descobrir quem realmente eram. Alguns pareciam versões diluídas de arquétipos já conhecidos, repetindo papéis com outros rostos. Outros até traziam certa ousadia, mas não conseguiam escapar da sombra dos veteranos. No fundo, havia no jogo um esforço genuíno de criação e iuovação, mesmo quando tudo ao redor parecia ruir.

Visualmente, o jogo é um espetáculo de imperfeição. Modelos rígidos, texturas com cara de areia molhada, olhos estáticos, bocas que mal se movem. Cores dissonantes que nunca entravam num acordo: laranjas gritavam, verdes quase neon saltavam da tela, e os azuis tinham um gelo que cortava. Não havia suavidade entre os tons, como se cada textura tivesse vindo de um mundo diferente, colada ali no improviso. No fim, tudo formava um mosaico meio torto, mas curioso: uma colagem de estéticas que não combinavam, mas davam ao jogo um charme próprio, estranho e impossível de esquecer. E às vezes me pergunto: será que não é exatamente isso que falta em tantos jogos de hoje? Essa coragem de ser bizarro. De errar o tom. De tentar algo, mesmo que saia torto.

Voltar a MK4 hoje é como abrir uma caixa de sonhos pela metade. Talvez não tenha acertado em quase nada. Mas tentou. Tentou reinventar um universo que já podia estar virando fórmula, tentou expandir o horizonte da franquia com novos mitos, novas texturas, novas intenções. Nos deu Shinnok e Quan Chi, nos deu um léxico novo pra luta. E mesmo eu, que só vi esse jogo com olhos de criança curiosa, sentada ao lado de quem jogava de verdade, fui atravessada por ele de um jeito único, em especial na sua estética e na inovação de introduzir tantos personagens novos.

MK4 não é só um jogo. É uma dobra no tempo. Um espaço intermediário. Um instante esquisito entre o que estava morrendo e o que ainda nem tinha sido inventado. É aquele momento estranho, um glitch, em que o erro vira identidade. A estranheza vira originalidade. E isso, pra mim, sempre vai ter mais valor do que a perfeição.

NOTA:
7
/10

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Worms Armageddon

"Worms Armageddon" (1999) é um mergulho direto na alma da era dos anos 90, quando videogames ainda tinham o poder de reunir amigos no sofá para uma experiência tão caótica quanto inesquecível. Lançado em 1999 pela Team17, o jogo se destacou por sua fórmula simples, mas com um toque de genialidade: equipes de minhocas armados com bazucas, granadas de banana e a inesquecível Granada Aleluia, duelando em cenários cheios de possibilidades e surpresas. Cada partida era um espetáculo de estratégia improvisada, com pitadas generosas de humor e sorte — e talvez algumas amizades abaladas por um tiro bem colocado.

Se há algo que Worms Armageddon conseguiu capturar perfeitamente, foi a essência do multiplayer local. Imagine a cena: uma sala iluminada pela luz da TV, risadas ecoando enquanto alguém erra um tiro crucial por causa do vento, e aquela mistura inconfundível de competição e camaradagem. Para muitos, essas sessões não eram apenas jogos — eram pequenos eventos sociais que se tornaram parte da memória coletiva de uma geração. E mesmo no modo solo, havia um certo charme em dominar os desafios insanos das missões, que pareciam estar constantemente testando tanto a paciência quanto a criatividade do jogador.

O diferencial de Worms Armageddon, no entanto, está na maneira como ele mescla simplicidade com profundidade. O sistema de física, até hoje lembrado como um dos mais inovadores, transformava até mesmo o ato de arremessar uma granada em uma aula de cálculo prático. Força, ângulo, vento — tudo influenciava cada decisão, e cada erro podia ser uma explosão de risos ou de frustração. A Ninja Rope, com sua física única e curvas de aprendizado desafiadoras, era praticamente uma arte. Quem dominava essa ferramenta não era apenas um jogador habilidoso; era um ninja das minhocas.

E como não falar das falas? Quem jogou jamais esquece o "Sir, yes sir!" dito em tons caricatos, ou o "Oh, não!" que precedia explosões catastróficas. Esses pequenos detalhes de sonoplastia não eram apenas um complemento; eles definiam o caráter e a identidade do jogo, transformando cada vermizinho em uma espécie de anti-herói tragicômico. O som era parte da experiência, elevando o humor e consolidando o charme nostálgico que permanece até hoje.

Além disso, o arsenal de Worms Armageddon era um espetáculo à parte. As armas e ataques garantiam momentos hilários que transformavam o cenário em um show de destruição e risos. Podemos citar o Gambá (ou melhor, cangambá), que espalhava gás venenoso causando danos contínuos às minhocas afetadas, e a icônica Velhinha, que caminhava lentamente pelo campo antes de explodir em uma despedida cômica. O Lança-Ovelhas fazia o caos voar literalmente, lançando ovelhas explosivas em trajetórias improváveis, enquanto a caótica Vaca Maluca trazia uma sequência de bovinos descontrolados – uma fileira de vaquinhas muito loucas e explosivas. Cada uma dessas armas não era apenas útil estrategicamente, mas também carregava o tom irreverente que fazia do jogo algo único.

Mesmo décadas após seu lançamento, Worms Armageddon continua relevante — uma prova do impacto que ele causou. A comunidade fiel mantém o jogo vivo através de mods, mapas personalizados e até mesmo melhorias que os fãs mesmos desenvolveram. Claro, as edições recentes dividem opiniões: enquanto muitos celebram o acesso renovado ao clássico, outros lamentam a falta de aprimoramentos gráficos ou modos online mais robustos. Mas talvez isso apenas destaque o verdadeiro legado do jogo: ele não precisa de polimento ou modernização para ser especial. Sua força está na simplicidade e na diversão explosiva que oferece.

Worms Armageddon é um jogo que, em vez de ficar datado, parece ter ganho mais valor com o passar dos anos. Seja para reviver as risadas de um multiplayer local ou para se perder na nostalgia das vozes dos minhocas, o jogo continua a ser uma experiência única. Afinal, em um mundo repleto de gráficos ultrarrealistas e narrativas épicas, ainda há algo mágico em simplesmente juntar uns amigos, preparar umas granadas e deixar o caos tomar conta.

NOTA:
8
/10

domingo, 29 de dezembro de 2024

Mortal Kombat: Shaolin Monks

Mortal Kombat sempre carregou consigo combates intensos e Fatalities inesquecíveis, mas, ao longo dos anos, um ponto se tornou impossível de ignorar: a mobilidade dos jogos parecia estar presa no tempo. Seja na fase 3D de Mortal Kombat: Deception, na trilogia clássica do Super Nintendo, ou mesmo em experimentos como Mortal Kombat: Armageddon, o problema era o mesmo: movimentos duros, cenários mais decorativos do que funcionais, e pouca liberdade para explorar as arenas. Era frustrante. Mas, em 2005, o lançamento de Mortal Kombat: Shaolin Monks mudou tudo. Foi como se a franquia finalmente soltasse os grilhões e permitisse que os jogadores respirassem — e se movessem — de verdade.

Shaolin Monks pegou tudo que a série tinha de melhor e transportou para uma experiência completamente nova. Os combates, antes confinados, ganharam vida em ambientes tridimensionais que incentivavam não apenas a luta, mas a exploração. Pela primeira vez, a mobilidade deixava de ser um ponto fraco e se tornava o maior destaque do jogo. De maneira inédita, o sistema de combate agora permitia ataques contra múltiplos inimigos simultaneamente e combos que se conectavam com fluidez impressionante. Isso sem falar das habilidades que eram progressivamente desbloqueadas, ou seja, os ataques especiais absolutamente maneiro e viciantes, em especial os do Kung Lao. É uma sensação de liberdade inexplicável. Esse novo sistema também introduziu a interação com o ambiente como parte essencial da estratégia — arremessar inimigos em árvores que os devoravam ou usá-los para ativar armadilhas fazia com que cada batalha fosse mais dinâmica e criativa.

Na narrativa, Shaolin Monks reimaginava os eventos de Mortal Kombat II, expandindo a história clássica com novos detalhes e um enredo mais acessível. O jogo começava logo após o colapso da ilha de Shang Tsung, com Liu Kang e Kung Lao sendo lançados em uma jornada para impedir que o feiticeiro dominasse Earthrealm. No caminho, encontramos personagens icônicos como Scorpion, Baraka e Reptile, além de explorar cenários agora amplamente desenvolvidos, como a Floresta Viva, o Túmulo das Almas e o Outworld. Esses locais não eram apenas visualmente deslumbrantes; cada um tinha uma função prática e narrativa que reforçava a imersão.

E se jogar sozinho já era uma experiência incrível, o modo cooperativo levava tudo a outro patamar. Shaolin Monks é um daqueles raros jogos que entendem o que significa jogar com outra pessoa ao lado. Desde a coordenação para acessar áreas exclusivas até os ataques combinados que traziam uma sensação única de sincronia, o multiplayer local era tão bem pensado que parecia obrigatório experimentar o jogo dessa forma. A interação entre Liu Kang e Kung Lao, repleta de provocações e piadas, dava um tom mais leve e divertido, sem perder a intensidade do universo Mortal Kombat.

Outro aspecto que merece destaque é o cuidado da Midway em criar uma atmosfera inesquecível. Cada cenário, cada música e cada som contribuíam para um mundo que se sentia vivo, mas ao mesmo tempo sombrio e ameaçador. A trilha sonora misturava instrumentos orientais e composições sinistras que reforçavam o tom marcial e místico do jogo. Além disso, elementos de jogos metroidvania foram adicionados de forma sutil, com habilidades como saltos duplos, corrida em paredes e destruição de estátuas que permitiam explorar áreas previamente inacessíveis. Essa camada extra de exploração ampliava o tempo de jogo e a sensação de recompensa ao descobrir segredos escondidos.

É curioso pensar como Shaolin Monks conseguiu acertar em tantos aspectos que outros títulos da série falharam. Desde a jogabilidade fluida até a forma como reimaginou o enredo de Mortal Kombat II, o jogo provou que a série não precisava ser limitada a arenas fixas e combates um contra um. Onde jogos como Deception e Armageddon ainda tropeçavam em ambições excessivas, Shaolin Monks entregou uma experiência coesa e marcante. Quase vinte anos depois, ele continua a ser um ponto fora da curva na franquia, lembrado com carinho e saudade pelos fãs. Não é à toa que, mesmo agora, muitos clamam por um remake ou uma sequência que capture a mesma ousadia criativa.

Shaolin Monks não foi apenas um spin-off; foi o único jogo da série a oferecer mobilidade real, e é isso que o torna um clássico tão especial.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Resident Evil 1 (PS1)

Eu me lembro bem das noites em que eu, ainda criança, espiava meu irmão mais velho jogar Resident Evil 1 no PlayStation. Nunca cheguei a segurar o controle na época, mas assistir da segurança de um canto da sala já era o suficiente para sentir um frio na espinha. Aquele universo sombrio e meticulosamente construído me cativava: as criaturas perturbadoras, as estátuas imponentes, a ameaça da planta carnívora e o enigma das joias do olho do tigre. Era fascinante. De certa forma, parecia que eu também estava lá, explorando cada corredor escuro e misterioso, mesmo que de longe. Revisitar esse clássico hoje em dia é como abrir um álbum de memórias macabras, voltando ao mesmo tempo para uma época de pura curiosidade e medo genuíno.

Lançado em 1996 pela Capcom, Resident Evil 1 marcou o nascimento de um gênero que viria a definir a essência do horror nos videogames: o survival horror. A trama começa com a equipe Bravo da S.T.A.R.S. desaparecendo misteriosamente nas Montanhas Arklay. Em resposta, a equipe Alpha é enviada para investigar, composta por personagens icônicos como Chris Redfield e Jill Valentine. Em uma série de reviravoltas, eles se veem presos em uma mansão sinistra e repleta de segredos. A escolha de um cenário como a mansão Spencer não foi por acaso; sua arquitetura labiríntica e enigmas intrincados contribuíam para a sensação de estar em um lugar genuinamente real, mas ao mesmo tempo absurdamente perigoso. Essa escolha de design reflete a intenção do jogo de tornar cada elemento o mais imersivo possível, um aspecto que ficou marcante e até peculiar na série, como o uso de ervas medicinais e máquinas de escrever para salvar o progresso, criando um senso quase paradoxal de realismo fantástico ou de fantasia realista.

O jogo te dá a opção de escolher entre Chris ou Jill, e cada um oferece desafios únicos. Enquanto Chris é mais resistente, ele possui um inventário menor e precisa de mais chaves; já Jill tem mais espaço para itens e conta com habilidades de desbloqueio. Ah, e claro, ela ainda tem a ajuda de Barry Burton em momentos cruciais. A visão de câmeras fixas e os cenários pré-renderizados contribuem para um clima claustrofóbico que é a cara do jogo — nunca sabemos o que está à espreita logo fora do campo de visão. Essa incerteza é intensificada pelo sistema de inventário limitado, onde cada escolha de item pode ser crucial para a sobrevivência. Embora esse gerenciamento rígido de recursos possa parecer um tanto arcaico para alguns jogadores modernos, ele é parte fundamental do DNA de Resident Evil, evocando um senso de urgência e tensão que poucos jogos conseguem replicar.

Resident Evil 1 não é apenas sobre monstros e tiros; é também sobre enigmas desafiadores e engenhosos. Quem não se lembra do enigma do relógio na sala de jantar, onde os ponteiros precisam ser alinhados para revelar um compartimento secreto? Ou da sala dos emblemas, em que partituras musicais e trocas estratégicas entre itens revelam novas passagens? E claro, a Planta 42, um monstro vegetal mutante que cresceu descontroladamente após o vazamento do T-Virus. Trata-se de um inimigo formidável que exige mais do que força bruta para ser derrotado. Seu enigma complexo de substâncias químicas precisa ser resolvido com precisão, criando uma mistura específica que enfraquece suas raízes. Um erro na ordem de criação pode resultar em um composto tóxico, colocando o jogador em risco, o que torna essa batalha ainda mais tensa e desafiadora. Esses enigmas minuciosos, juntamente com a sensação de terror psicológico, são o que tornam o jogo uma experiência verdadeiramente única, com um toque de excentricidade que mais tarde se tornaria um marco da franquia.

A atmosfera de Resident Evil 1 é uma aula de construção de tensão. Com cenários pré-renderizados, ângulos fixos de câmera e uma trilha sonora que arrepia, o jogo te envolve por completo. Cada som, desde os passos ecoando nos corredores até as portas rangendo, contribui para o terror. E os corredores escuros e estreitos? Esses, sem dúvida, são um dos elementos mais marcantes, transformando a mansão Spencer em um personagem à parte. É impossível esquecer o impacto cultural desse jogo, que não só estabeleceu novos padrões para o gênero, mas também lançou uma franquia que atravessou gerações. No Brasil, o jogo foi um fenômeno, e muitos jogadores — eu incluída — ainda têm memórias vívidas da adrenalina e do medo que ele proporcionava. Mesmo os elementos mais "bizarros", como a inclusão de máquinas de escrever para salvar o jogo, se tornaram símbolos nostálgicos, refletindo a abordagem quase 'esquemática' do design do jogo, que misturava o real com o surreal de maneira icônica.

Foram feitas duas remasterizações do jogo que redefiniram a experiência de Resident Evil para diferentes gerações. O Resident Evil Remake, lançado em 2002 para o Nintendo GameCube, reinventou o clássico de 1996 ao elevar sua atmosfera e mecânicas a um novo nível, trazendo gráficos detalhados, ambientes expandidos e novos desafios. Essa versão manteve a essência do original, mas adicionou camadas de tensão e complexidade, com controles mais fluidos e um design de cenários ainda mais imersivo, além de enigmas aprimorados para desafiar tanto veteranos quanto novos jogadores. Já em 2015, o Resident Evil HD Remaster modernizou ainda mais essa reimaginação, adaptando-a para plataformas contemporâneas com gráficos em alta definição, iluminação refinada e suporte a controles analógicos. As melhorias técnicas, como texturas em 1080p e áudio remasterizado, trouxeram uma sensação renovada de claustrofobia e horror, garantindo que a obra permanecesse tão intensa e envolvente quanto no lançamento original.

Há algumas diferenças entre as versões. Por exemplo, no memorável enigma da estátua do tigre. No Resident Evil original de 1996, a inscrição "Alguns tigres possuem um olho vermelho e um olho azul" dá a pista para os jogadores inserirem as gemas azul e vermelha nas órbitas oculares da estátua. Colocar a gema azul revela o Wind Crest, um emblema que o jogador precisa coletar para avançar em áreas específicas do jogo, enquanto a gema vermelha, que é opcional, libera a Colt Python — uma das armas mais poderosas, perfeita para lidar com os inimigos mais desafiadores. Já no Resident Evil Remake de 2002, a dinâmica muda: a gema azul continua obrigatória, mas a vermelha é substituída pela amarela, que libera um Disquete MO, usado para destravar portas de segurança e salvar Jill, garantindo o melhor final do jogo.

Por outro lado, Resident Evil 4, lançado em 2005, representou – para mim e para os fãs mais nostálgicos – uma ruptura tão grande na série que quase poderia ser um jogo completamente diferente, talvez até com outro nome. Enquanto os três primeiros títulos abraçavam o horror psicológico, com suas câmeras fixas, recursos escassos e ambientes opressivos, o quarto jogo adotou uma abordagem mais voltada para a ação, ao substituir o terror mais lento e psicológico por uma ação intensa e uma câmera sobre o ombro, algo inédito na franquia até então. Também houve a implementação de cenários mais abertos e uma iluminação mais clara, diminuindo a sensação de suspense. Apesar de entender o apelo desse novo formato, sinto que o ritmo mais frenético acabou diluindo a essência do terror original que tanto definia a série. Reconheço que Resident Evil 4 é tecnicamente excelente, mas essa transição comprometeu a continuidade estética e narrativa da franquia. Curiosamente, muitos o consideram um dos melhores jogos dentre todos, como argumentado pelo canal JJ, em um vídeo intitulado "Resident 4 é uma obra de arte". Nele, o youtuber enfatiza como o jogo trouxe gráficos impressionantes e uma cinematografia marcante. Ele também ressalta os inimigos mais agressivos, a atmosfera envolvente e uma jogabilidade mais fluida e dinâmica, características que não apenas redefiniram Resident Evil, mas também influenciaram profundamente os jogos de ação e terror que vieram depois.

De todo modo, revisitar Resident Evil 1 é como voltar no tempo e mergulhar de novo naquela sensação de tensão e mistério que marcou uma era. É mais do que apenas um jogo; é um pedaço da história do horror nos videogames, uma obra que, mesmo com gráficos datados, ainda consegue despertar o mesmo tipo de medo e admiração. Para mim, é um clássico que merece estar no hall da fama do gênero, não apenas por sua importância histórica, mas pelo impacto emocional que ainda carrega. Mesmo com todas as suas “rugas” e excentricidades, como as plantas medicinais que lembram um toque de alquimia bizarra, é exatamente esse charme peculiar que faz Resident Evil ser tão memorável até hoje.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Trilogia Bioshock

Imagine se deparar com uma cidade submersa, perdida nas profundezas do oceano. Rapture, de longe, já te impressiona com sua grandiosa arquitetura em art déco – um estilo dos anos 1920 e 1930 que combina formas geométricas, linhas retas e luxo – e seus neons piscando no meio da destruição. Mas o que realmente te envolve é o clima opressivo, quase claustrofóbico, que te cerca a cada passo. Logo você percebe que essa cidade, que um dia foi uma utopia vibrante, é agora um pesadelo. No começo, há uma certa beleza, um ar de fascínio, mas, conforme você explora, entende que essa fachada esconde uma realidade brutal e sombria. O perigo está sempre presente.

Os antigos habitantes de Rapture, deformados e consumidos por sua obsessão com o ADAM, a substância que dá poderes sobre-humanos, rondam os corredores. Você ganha acesso a esses mesmos poderes, que te permitem controlar fogo, eletricidade, ou até a mente dos seus inimigos. Mas essa sensação de poder nunca dura muito. Rapture é um lugar onde o poder corrompe tudo, e o jogo faz questão de te lembrar disso o tempo todo, equilibrando as habilidades que você adquire com a constante falta de recursos e a presença de inimigos implacáveis. Aqui, o poder tem um custo, e isso repercute em cada decisão que você toma.

À medida que você avança, a cidade começa a revelar suas camadas mais complexas. Bioshock é uma obra de arte não só visual, mas narrativa. A história não é entregue de bandeja — você precisa explorá-la, coletar fragmentos de informações, ouvir gravações deixadas para trás, entender os motivos por trás da ascensão e queda de Rapture. E mesmo depois de terminar o jogo, a trama permanece com você, instigando perguntas. Mesmo após zerar o jogo, é interessante recorrer a vídeos para compreender completamente o enredo, que brinca com conceitos de livre-arbítrio, controle e moralidade. O famoso "Would you kindly?" ("Poderia, por gentileza?") é um exemplo perfeito de como o jogo te faz questionar se você realmente está no controle ou apenas seguindo um roteiro cuidadosamente desenhado.

Mas é a estética de Bioshock que realmente me fascina. Poucos jogos conseguem criar uma atmosfera tão envolvente quanto essa saga. A ambientação de época, encharcada de retrofuturismo, te transporta para outra realidade, ao mesmo tempo bela e decadente. Cada detalhe, desde a arquitetura até a trilha sonora, foi feito para te imergir completamente nesse mundo. É o tipo de estética que eu, pessoalmente, considero incomparável. Rapture, com suas influências dos anos 1930, é uma mistura perfeita de sonho e pesadelo, onde o luxo e a degradação andam lado a lado. Poucos jogos chegam perto dessa combinação única, talvez apenas a estética da saga Fallout, mas Bioshock traz uma elegância sombria que é difícil de superar.

Se Rapture é uma metáfora da corrupção pela ambição e pela ganância, Columbia, cenário de Bioshock Infinite, revela uma face diferente, mas igualmente perturbadora. Ao contrário da cidade submersa, Columbia flutua nos céus, com suas ilhas suspensas e festividades patrióticas. Mas logo ao tocar o chão, você percebe que essa cidade, que parece saudar o esplendor do American Dream, é um lugar profundamente opressivo, onde o racismo e o fanatismo religioso governam. A história de Bioshock Infinite se desenrola de maneira frenética, com combates dinâmicos em trilhos aéreos, e uma narrativa que se aprofunda em universos paralelos e escolhas morais. Elizabeth, sua companheira na jornada, é mais do que uma simples ajudante — ela tem o poder de abrir fendas para outras realidades, e cada ação que ela realiza pode mudar o curso da história. Isso traz uma sensação de mistério e urgência que faz de Columbia um lugar tão fascinante quanto Rapture, mas de um jeito completamente diferente.

Ainda assim, é impossível ignorar o quão central é a estética nessas cidades. Columbia, com sua estética vitoriana e futurista, também tem uma beleza visual que contrasta violentamente com o horror político e social que permeia cada esquina. As ruas ensolaradas e os desfiles patrióticos são apenas uma máscara para uma sociedade profundamente desigual e segregada, onde aqueles que vivem à margem lutam por sobrevivência. É um ambiente deslumbrante, mas traiçoeiro, onde cada detalhe revela as rachaduras de uma civilização que se esconde atrás de ideais falsos.

Voltando a Rapture, especialmente em Bioshock 2, há uma profundidade emocional ainda mais evidente, com a dinâmica entre as Little Sisters e os Big Daddies. Esses gigantes, que antes pareciam ser apenas monstros, revelam uma relação profundamente simbólica com as Little Sisters, as crianças que eles protegem com tudo o que têm. A psicologia por trás dessa relação vai além do simples "bem contra o mal". Em Bioshock 2, você assume o papel de um Big Daddy, e a sensação de vulnerabilidade emocional ao proteger uma Little Sister adiciona uma nova camada de complexidade ao jogo. Essas figuras, que antes pareciam só brutamontes violentos, se transformam em seres trágicos, presos numa existência de proteção e obediência cega, enquanto as Little Sisters, manipuladas e corrompidas, vagam pelas ruínas de Rapture em busca de ADAM. Essa dinâmica é central e toca em questões de dependência, proteção e perda de inocência.

Essa carga emocional, misturada à estética única e à profundidade da história, é o que torna Bioshock uma série tão única e insubstitível. Não é apenas um jogo de tiro ou um exercício de exploração — é uma experiência filosófica, onde você é constantemente desafiado a questionar suas próprias escolhas, ao mesmo tempo em que se perde em cenários de tirar o fôlego. Ao final, o que fica não são apenas as batalhas ou os poderes que você conquistou, mas a reflexão sobre poder, controle, moralidade e a fragilidade das utopias.

Antes de finalizar, tem algo que eu levei um tempo para entender e quero explicar, que é a diferença entre ADAM, EVE e Plasmids. O ADAM é a pedra-angular de Rapture, pois é ele que permite que você mude sua genética. Já os Plasmids são as habilidades especiais em si, como lançar fogo, eletricidade ou mover objetos com a mente. O problema é que o ADAM só pode ser conseguido através das Little Sisters, meninas transformadas pela substância. Aqui está o dilema: você pode salvá-las ou sacrificá-las, e isso afeta a quantidade de ADAM que você terá, além de influenciar o final do jogo.

O EVE, por sua vez, é o que "carrega" os Plasmids, funcionando como a energia que os alimenta. Toda vez que você usa uma habilidade, como dar um choque ou manipular algo, o EVE é consumido rapidamente. Se ele acabar, você não consegue usar essas habilidades até conseguir mais. Isso te força a pensar o tempo todo se vale a pena usar um poder agora ou guardar para depois. No fim, o jogo é sobre equilibrar o uso do ADAM e do EVE. Quanto mais poder você quer, mais caro isso sai, seja em recursos ou em escolhas morais. E é justamente esse equilíbrio entre sobrevivência e corrupção que torna a experiência de Bioshock tão única.

De todo modo, mesmo que você consiga chegar ao fim da trilogia, é provável que algumas questões ainda fiquem na sua cabeça. É o tipo de jogo que te leva a buscar respostas, seja revendo gravações que você encontrou no jogo ou assistindo vídeos explicativos para compreender as camadas mais profundas da trama. Bioshock te deixa pensando por muito tempo depois que os créditos finais rolam — e isso, para mim, é o que define uma verdadeira obra-prima.

NOTA:
10
/10

sábado, 18 de maio de 2024

Mortal Kombat (Trilogia Clássica)

O ano era 2004. Para ser mais específica, 3 de janeiro, o primeiro sábado do ano. Minha família havia sido convidada para um churrasco, presumivelmente pós-Ano Novo, na casa de um amigo do meu pai, um tal de Zago. Era o típico churrascão brasileiro de classe média, reunindo amigos e familiares, fartura de carne e cerveja, um almoção com arroz e vinagrete, churrasqueira improvisada, música alta e conversas mais altas ainda. Não era exatamente a minha praia – eu tinha apenas 7 anos (embora, na minha cabeça, isso já fosse muito).
Enquanto o churrascão à moda brasileira rolava lá fora, no quintal de concreto, eu ficava dentro da casa, junto ao filho do tal Zago, que tinha uma idade bastante próxima da minha. Quando vi o que ele tinha no quarto, o churrasco passou a valer a pena. Adivinhem o que era. Um videogame, o Sega Genesis. Também conhecido como Sega Mega Drive, esse era um console que, no Brasil dos anos 90, era um competidor direto do famosíssimo Super Nintendo. Embora houvesse uma intensa rivalidade entre esses dois videogames, a verdade é que essa foi a primeira e última vez que vi, com meus próprios olhos, um Sega Genesis, enquanto o SNES era uma febre. Como a minha realidade sempre foi a de uma criança de classe média, esse tipo de videogame dos Anos '90 só ficou acessível para nós na primeira metade dos Anos 2000.

De todo modo, é aqui que essa contextualização pretendia nos trazer: embora aquele console preto fosse algo novo e desconhecido para mim, o jogo que o filho do Zago colocou para jogarmos era um game bastante familiar: nada mais, nada menos que Ultimate Mortal Kombat 3, provavelmente o MK mais icônico da história dos jogos. Essa é a memória mais vívida que tenho dessa época, quando a internet ainda estava engatinhando, a vida era mais simples e havia muita união familiar. É a época de TV Globinho, Dragon Ball Z, Cavaleiros do Zodíaco, Jackie Chan... Como sempre digo nas análises aqui do blog, só sabe o peso da nostalgia quem de fato esteve lá, vivenciando tudo isso, sabendo hoje que é um tempo que não volta mais.
Mas, sim, retornando a esse engatinhar da Mortal Kombat (feito em 16-Bits, também conhecido como a 4ª geração dos consoles): há também outra memória, essa um pouco mais turva, de eu colocar os olhos, pela primeira vez, no Mortal Kombat [1] de Super Nintendo. Esse jogo, que posso tranquilamente classificar como o MK mais arcaico que já joguei, é uma releitura do "Mortal Kombat" original, lançado nos arcades, que deu início à franquia. Ele é bem rudimentar e limitado, mas tem uma atmosfera e uma sonoplastia impecáveis, o puro creme da nostalgia dos Anos '90. Isso também aconteceu na casa de um amiguinho de infância, o que reforça a minha tese de que, antigamente, na falta de computadores e smartphones, os videogames eram a verdadeira pérola tecnológica dos lares brasileiros.
Os churrascos de família eram mais do que apenas uma refeição; eram eventos onde se compartilhavam histórias, risadas e momentos preciosos. Enquanto os adultos se reuniam em torno da churrasqueira, discutindo sobre futebol e política, nós, crianças, encontrávamos refúgio nos videogames ou se aventuravam em brincadeiras no quintal. Esses momentos de diversão simples e despretensiosa são uma lembrança doce de uma infância livre e descomplicada, numa época em que os smartphones ainda eram raríssimos.
Agora, adentremos na história e no legado da saga Mortal Kombat dos Anos '90. Vejamos o que nos ensina a Inteligência Artificial após uma profunda busca na internet:
A história do Mortal Kombat nos anos 90 no Brasil e em todo o mundo é marcada por sua inovação no gênero de jogos de luta, introduzindo um nível de violência e realismo gráfico que mudou a indústria dos videogames. Mortal Kombat nasceu da influência dos filmes de ação dos anos 80, trazendo para o universo dos jogos uma combinação de artes marciais e fantasia com um detalhe que se tornaria sua marca registrada: os Fatalities, movimentos finalizadores extremamente violentos. Essa característica, além de sua jogabilidade e gráficos digitalizados realistas, não apenas estabeleceu Mortal Kombat como um dos jogos de luta mais influentes, mas também contribuiu para a criação do sistema de classificação de jogos ESRB*, em resposta à preocupação pública com o conteúdo violento dos jogos. [*Organização americana que analisa, decide e coloca as classificações etárias indicativas para jogos eletrônicos.]
Nos anos 90, com a popularização dos videogames domésticos e a tecnologia de gráficos avançada, Mortal Kombat encontrou um público maior, e sua chegada provocou debates sobre a influência da violência dos videogames nos jovens. A polêmica em torno do jogo nos Estados Unidos, particularmente após a declaração do senador Joseph Lieberman sobre a violência explícita do jogo, levou à criação do sistema de classificação de videogames pela ESRB, destinado a informar os pais sobre o conteúdo dos jogos. Apesar das controvérsias, a franquia Mortal Kombat continuou a crescer, inovando com cada lançamento e expandindo seu universo com filmes, séries animadas e merchandise.
 Com toda certeza, o legado deixado pela trilogia Mortal Kombat clássica nos Anos '90 e 2000 deixou uma marca permanente na cultura dos videogames, sendo lembrada e reverenciada não apenas pelos seus avanços técnicos e artísticos, mas também pelo impacto cultural e social que provocou.
Agora, vamos a uma análise pessoal e subjetiva, minha, da forma como eu, pessoalmente, entendo e situo cada um dos jogos da trilogia.
Mortal Kombat 1 (SNES):
O Início de Tudo
Mortal Kombat 1 é o mais rudimentar de todos, e acredito que foi ali que a semente de Mortal Kombat foi plantada, embora o jogo seja originalmente de arcade. Foi nesse jogo que Mortal Kombat realmente começou. É rudimentar no sentido mais puro da palavra; é básico e carece de muitos recursos, mas já apresenta uma essência marcante, na estética. A sonoplastia de Mortal Kombat 1 é impressionante, com uma trilha sonora e efeitos muito característicos.
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Mortal Kombat 2 (SNES):
Aprimoramento e Evolução
Mortal Kombat 2, por sua vez, é, na minha opinião, o primeiro Mortal Kombat completo. Considero o Mortal Kombat 1 um rascunho, uma primeira tentativa, para o que viria a ser Mortal Kombat 2. Este jogo contém a essência de Mortal Kombat e, ao mesmo tempo, apresenta resultados satisfatórios. A qualidade dos cenários é impecável, oferecendo uma imersão visual que o primeiro jogo não conseguia alcançar. A trilha sonora, em especial, deu um salto de qualidade inacreditável. Apesar do nível de dificuldade contra a máquina ser bastante elevado, Mortal Kombat 2 trouxe uma evolução significativa para a série.
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Ultimate Mortal Kombat 3 (SNES & SEGA MD):
O Ápice da Série Clássica
A dificuldade de jogar Mortal Kombat, especialmente o Ultimate Mortal Kombat 3, é extrema, ainda maior do que no segundo jogo da série. Além disso, ele se destaca pela complexidade e pelos gráficos impressionantes para a época, que me lembram o design isométrico de The Sims 1. Na minha análise de The Sims 1, mencionei que seu gráfico isométrico o torna eterno – ele não envelhece, é perfeito na sua isometria. Da mesma forma, os gráficos de Ultimate Mortal Kombat 3 permanecem como um marco visual, representando o ápice gráfico da época. Em contrapartida, os gráficos de Mortal Kombat 1 e 2 envelheceram rapidamente, embora contenham a essência do que viria a ser alcançado em Ultimate Mortal Kombat 3. Para mim, Ultimate Mortal Kombat 3 é o principal jogo de toda a franquia clássica, sendo essa a única parte da franquia sobre a qual posso falar com propriedade.
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Os personagens também são uma parte essencial do que torna a franquia Mortal Kombat tão especial. Cada um dos ninjas, especialmente Sub-Zero e Scorpion, traz uma identidade única ao jogo. Além deles, temos heróis icônicos como Kung Lao, Liu Kang e Raiden, que são fundamentais para dar alma à narrativa e à experiência de jogo. A diversidade de personagens, com suas histórias e habilidades distintas, enriquece o universo de Mortal Kombat e nos cativa de forma duradoura e singular.
Os outros ninjas, como Smoke, tanto na sua versão humana quanto robótica, e Reptile, adicionam camadas de complexidade ao enredo. Os personagens cibernéticos como Cyrax e Sektor trouxeram um elemento futurista e inovador. E não podemos esquecer do enigmático Noob Saibot, que mais tarde fez uma dupla icônica com Smoke em Mortal Kombat: Deception.
As personagens femininas, como Kitana e Mileena, além de Sonya e Sindel, já estavam presentes desde a década de 90. Embora fossem estereotipadas e objetificadas em certa medida, sua presença era significativa e adicionava diversidade ao elenco, mostrando que Mortal Kombat estava à frente de seu tempo.

Entretanto, nem tudo são flores. Uma crítica central que quero aqui destacar, e que permeia não apenas a trilogia clássica, mas a franquia Mortal Kombat como um todo, é a questão da difícil mobilidade e da sensação de movimento rígido dos personagens. A falta de tridimensionalidade é um problema que acompanha quase todos os jogos da série. Desde os primeiros títulos, aqui analisados, até os lançamentos mais recentes, a mobilidade dos personagens é mais ou menos restrita, resultando em combates que normalmente parecem truncados, o que já foi naturalizado e aceito por aqueles que amam a franquia.
Essa falta de mobilidade cria uma dificuldade adicional, especialmente ao jogar contra a máquina, que possui um tempo de resposta muito menor do que o nosso como seres humanos. A rigidez dos movimentos faz com que seja três vezes mais difícil enfrentar os oponentes, dificultando a experiência de jogo.
Em relação a essa limitação rígida à jogabilidade, a exceção mais notável dentro da franquia é Mortal Kombat: Shaolin Monks, que conseguiu implantar uma mobilidade verdadeiramente fluida, oferecendo uma experiência de jogo única e imersiva. Além disso, o modo Konquest, presente em alguns dos jogos da franquia MK, também quebra a regra da falta tridimensionalidade, embora, nesse caso, ela não se aplique ao combate.
A introdução da tridimensionalidade na franquia Mortal Kombat começou a ser efetivamente implementada a partir de Mortal Kombat 4, lançado para PlayStation 1, que trouxe uma semi-tridimensionalidade aos combates. Essa mudança representou um passo significativo para a série, mas ainda não foi suficiente para superar completamente a sensação de movimento rígido, o que foi feito somente em Shaolin Monks.
Por fim, embora Mortal Kombat tenha revolucionado o gênero dos jogos de luta e tenha um legado inquestionável, a questão da mobilidade limitada é um ponto crítico que sempre esteve presente na série, afetando a jogabilidade e a experiência do jogador.
Concluir essa viagem nostálgica é reconhecer que cada versão de Mortal Kombat tem seu próprio lugar especial na evolução da série e na memória dos jogadores. Mortal Kombat 1, com sua simplicidade e essência sonora, plantou a semente; Mortal Kombat 2, com seus cenários impressionantes e jogabilidade refinada, consolidou a base; e Ultimate Mortal Kombat 3, com sua complexidade e apelo global, eternizou a franquia. Cada jogo, com suas características únicas e momentos inesquecíveis, compõe um legado que transcende gerações.
Revisitar esses jogos é como abrir um baú de memórias, onde cada partida traz de volta uma época em que a vida era mais simples e os jogos eram um portal para mundos de fantasia e aventura. A estética e a sonoplastia de Mortal Kombat incorporam a nostalgia de formas inexplicáveis, criando uma conexão emocional que vai além do simples ato de jogar.
Para mim, a trilogia clássica de Mortal Kombat é o verdadeiro Mortal Kombat. Tudo que veio depois foram apenas evoluções, algumas bem-sucedidas, outras nem tanto. Mas é essa trilogia que captura a essência da série, a magia daqueles tempos e a simplicidade que fez dos jogos uma parte tão importante da minha vida. Mortal Kombat não é apenas uma série de jogos; é uma viagem nostálgica que nos lembra de onde viemos e como esses momentos moldaram nossa paixão pelos videogames.
NOTA:
7,5
/10

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

GTA: San Andreas

        Hoje vamos falar do jogo que é, sem sombra de dúvidas, o ápice do PlayStation 2 e, provavelmente, o jogo mais relevante da primeira década dos anos 2000. Lançado em 2004, "Grand Theft Auto: San Andreas" (ou simplesmente "GTA: San Andreas") entrou para a história dos videogames e conquistou um cantinho no coração e nas memórias de todos aqueles que o jogaram à época.
        Na análise de hoje, vamos entender e relembrar como e por que GTA: San Andreas se tornou o jogo – não "um", mas "o jogo" – que marcou gerações inteiras e, até os dias de hoje, é considerado imbatível em muitos aspectos. Desde o seu mundo aberto, passando pelas músicas geniais das rádios, até a história envolvente, não existe nada que se compare a GTA:SA.
        Para entendermos a fundo, trago aqui duas análises completíssimas de dois youtubers que fizeram um trabalho maravilhoso, explicando tim tim por tim tim do que, exatamente, torna GTA:SA inesquecível. A primeira análise é do vídeo "Por que GTA: San Andreas é tão marcante? (Nostalgia GTA)", do youtuber Holmes. Veja a seguir.
        O GTA San Andreas: muitos jogaram no PlayStation 2 na época de moleque; outros, nas incríveis Lan Houses; e uns só conseguiram jogar quando o game saiu para celular. Em questão de portabilidade, GTA:SA está no mesmo nível de Skyrim, porque esse GTA tem para todos os consoles; se duvidar, até no seu microondas roda.
        Mas a questão é: por que um game tão velho ainda é tão ativo e tem uma comunidade tão grande, que, mesmo depois de anos, ainda é bastante ativa? Por que o GTA:SA é um jogo tão marcante? Vou falar sobre as coisas que realmente o alavancaram e fizeram GTA:SA ser o jogo que ele é hoje; aqueles pontos que fizeram diferença e que marcaram a gente durante muito tempo.

1. Liberdade
        De longe, o que mais chamou a atenção, na época do lançamento do GTA:SA, foi a incrível liberdade que o jogo te dava e a incrível variedade do que você poderia fazer no game. Você poderia ser muito bem um policial, um ladrão, um enfermeiro, um motorista, um bombeiro e muitas outras coisas que faziam ter uma gigantesca imersão no jogo, além das três gigantescas cidades que o game te disponibilizava: Los Santos, San Fierro e Las Venturas, cada uma com uma pegada diferente, com biomas e até NPCs diferentes, que faziam perder a noção do tempo com tanto conteúdo e coisas para serem exploradas. Mistérios, easter eggs, curiosidades: era só um pouco do que aquele mapa incrível escondia.
        Os veículos de GTA:SA também eram grandes atrações, que faziam literalmente você se esquecer das missões principais e simplesmente "ficar por aí" andando de moto, de carro, de JetPack ou até de avião-caça. Me diz aí quem nunca pegou uma moto no GTA:SA, sintonizou naquela radiozona insana - que só tinha músicas tops, meus amigos - e ficou dando voltas pelo mapa, sem rumo, apenas curtindo o momento.
        Eu acho que você já entendeu a magnitude de quão vasto é o mundo aberto de GTA:SA. Isso porque eu nem falei das guerras de gangue, sistemas de relacionamento, armamentos e, meus amigos, até bilhar (sinuca) a gente podia jogar, já pensou? Também tinha aquelas corridas que a gente podia fazer quando a perícia com o carro ia aumentando
        E lembrando que tudo isso era rodado no PS2, que rodava estralando, e isso era uma coisa fora do comum, já que quase todos os games da época eram lineares, como "Resident Evil 4", "God of War", "Dragon Ball Z: Budokai Tenkaichi 3", "Downhill Domination" e muitos outros, que eram jogos bons, realmente, mas que não tinham o mundo aberto, nem te davam liberdade para estar fazendo algumas escolhas. Claro que também existiram outros games de mundo aberto, mas nenhum com a densidade de GTA:SA; o único game que chegou perto disso foi o "Bully", que também tinha um mundo aberto fenomenal.
        Na minha opinião, o mundo aberto e a liberdade que o GTA:SA deu foi um dos principais motivos de o game ser tão bom e até hoje o game ser usado como conteúdo, tanto no Youtube quanto para a galera nova que nunca jogou e está a fim de jogar o jogo.

2. Detalhes
        A gente sabe que a Rockstar Games sempre caprichou nos detalhes dos seus games, mas o que ela fez com GTA:SA foi absurdo demais, se considerarmos que o game foi planejado para rodar num PS2. E esses detalhes realmente fazem a diferença na gameplay, já que eles dão muito mais imersão pro player. Por exemplo: em uma missão , se o C.J. estiver um pouco acima do peso, ele não vai conseguir fazer a missão, porque ele vai estar muito pesado para conseguir voar com a JetPack. E isso era uma parada totalmente absurda na época, já que a maioria dos games não tinha esse nível de detalhamento.
        Embora às vezes sejam detalhes que ninguém percebe, eles fazem total diferença na gameplay. E esses detalhes, de toda forma, mudam a maneira que o jogador interage com o game, já que ele vai ficar curioso e tentar achar mais coisas, mais detalhes, mais segredos. Um exemplo disso são os próprios canais do YouTube, como o GigaTon Games, em que ele mostra segredos e detalhes de GTA:SA que você nunca imaginou existir. Ou seja, o detalhamento e o polimento que o GTA:SA teve na sua produção ajudou muito a imortalizar o jogo.

3. Personagens e história
        O GTA:SA se tornou o que ele é hoje graças à sua incrível história e por ter muitos personagens carismáticos. Vai me dizer que você nunca viu um meme do C.J. por aí na internet ou então aquela clássica fala do Big Smoke: "All we had to do was follow the damn train, C.J.!"
        O GTA:SA é infestado de personagens carismáticos para caramba, como o misterioso The Truth ou então o maluco que dá aquelas missões horríveis para você, que é o Mike Toreno, além dos membros da Grove Street, o Sweet, o Big Smoke e o Ryder. A questão é que o jogo desenvolve bem cada um desses personagens, mostrando todas as faces deles. Quando eu era moleque, eu era amarradão no Ryder, só pelo estilo dele de andar, de agir, só pela drip, sabe?
        E o Modo História do game? Acho que o GTA:SA foi o primeiro jogo que eu joguei que eu realmente foquei em entender o que estava acontecendo ali. Isso porque de alguma forma o jogo atiçou a minha curiosidade para eu entender certas coisas que aconteceram no game. Por exemplo: quem tinha matado a mãe do C.J.? E por que o Big Smoke não morava mais na Grove Street?
        O Modo História vai te envolvendo, coisa que eu sinto falta nos jogos de hoje em dia, que pecam em questão de história, aqueles que literalmente falam tudo logo de cara, toda a história, tudo que está acontecendo naquele mundo, coisa que deixa o game meio chato, já que você não vai ter aquela emoção de descobrir aos poucos o que está acontecendo ali. E o GTA:SA faz isso muito bem, já que ele vai te dando pistas no começo do game sobre o futuro da história e, aos poucos, ele vai te revelando mais e mais. Tanto que as comunidades de GTA:SA focadas no Modo História ainda são bem ativas.
        Das missões do jogo nem se fala. É cada missão, que às vezes você para e pensa: "É sério que o C.J. vai fazer isso, cara? É sério que ele vai invadir uma base militar para roubar um negócio que o maluco nem sabe o que é?" Talvez por essa e outras o Modo História de GTA:SA é tão bom. E por incrível que pareça, ainda há pessoas que não curtem o Modo História do jogo, acreditem se quiser.

4. Easter Eggs e Mistérios
        Essa aqui é uma menção bem honrosa, já que realmente algumas coisas aqui foram frutos da criatividade da comunidade. Na necessidade de mais coisas no GTA:SA, a comunidade acabou criando vários mistérios e lendas urbanas dentro do game, como o mistério do Pé Grande, do possível Serial Killer do game, os OVNIs na Área 51, o Bar dos Aliens no deserto. Várias teorias como essas foram criadas e, por muito tempo, foram alimentadas com vídeos fakes na internet. Isso porque o mundo de GTA:SA é muito grande; realmente, de vez em quando, coisas meio sinistras podiam ser encontradas no mapa. Mas muitas dessas lendas não passam de pulgas atrás da orelha, infelizmente.
        E dos Easter Eggs – referências secretas – nem se fala. O game veio repleto de menções a rappers, a filmes, a tudo, galera. Até o Easter Egg que dizia "aqui não tem um Easter Egg" foi encontrado; que, para quem não sabe, é em cima daquela ponte [vermelha] de San Fierro.
        E grande parte do sucesso de GTA:SA realmente veio dessas lendas e mistérios criados pela própria comunidade, e que formaram um nicho diferente no game.

5. Conclusão
        A questão é que GTA:SA é um jogo completo: tanto em história, quanto em jogabilidade e portabilidade. E por ser realmente único, continua fazendo fãs até hoje.
        De fato, em termos de mundo aberto e detalhista, GTA: San Andreas foi absolutamente pioneiro. Essa sempre foi minha parte favorita: explorar e aproveitar a liberdade que o jogo oferece. Quando criança, eu costumava visitar meu primo, que tinha um PlayStation 2 naquela época, e passar horas a fio explorando o mapa de GTA:SA, apreciando cada detalhe. Mesmo após conhecer o mapa como a palma da minha mão, continuava descobrindo detalhes e segredos anteriormente não percebidos. Ainda hoje, ao voltar às raízes e jogar GTA:SA no PC (com a vantagem de poder jogar online, com o GTA: San Andreas MultiPlayer, ou simplesmente GTA:SAMP), me divirto explorando e descobrindo os detalhes espalhados pelo imenso mapa.
        Minha paixão por fotografia, cultivada desde a infância, encontra um paralelo fascinante no jogo. Desde pequeno, enquanto explorava o mundo de GTA:SA, eu fazia questão de registrar com a câmera do C.J. as minhas perspectivas., imortalizando as cenas e paisagens que me encantavam. Agora, anos depois, mantenho um blog exclusivo para compartilhar essas fotografias de GTA:SA. É uma forma de expressar minha paixão pela fotografia, mas no contexto deste microverso gamer. Cada foto é um pedaço da minha experiência, uma janela para ver GTA:SA sob minha ótica pessoal.
        É um jogo que, em sua amplitude e detalhismo, transmite uma enorme sensação de tranquilidade e de imersão. Não é apenas um jogo, mas uma outra realidade a ser desbravada, produzida nos mínimos detalhes – ainda que haja as limitações gráficas próprias da época.
        Quanto aos Easter Eggs & Mistérios, essa parte da comunidade online de GTA:SA é extremamente curiosa. Há muitas teorias: algumas falsas, outras explicadas por bugs e algumas que até fazem sentido. De qualquer maneira, todas são fascinantes e vale a pena dar uma aprofundada no assunto. Felizmente, o youtuber @Renatows fez um vídeo completíssimo, "O Iceberg de GTA: San Andreas" (22 minutos), destrinchando esse tema. Esse vídeo é essencial para fãs de GTA:SA e você pode assisti-lo clicando na imagem logo abaixo. Ao assistir ao vídeo, você percebe que a influência de GTA:SA é tão marcante que um dos easter eggs foi concretizado na Ponte Golden Gate de São Francisco (CA), na vida real – um exemplo perfeito de quando "a vida imita a arte".


      Lembram da pirâmide negra em Las Venturas, com sua imponente esfinge egípcia? Um ícone para qualquer jogador de GTA:SA... Tal monumento majestoso é, na verdade, uma réplica virtual do Luxor Hotel and Casino, um marco de Las Vegas no mundo real. Esta representação em GTA:SA é uma verdadeira celebração da linha sutil entre realidade e ficção, um testemunho da habilidade do jogo em refletir e homenagear locais emblemáticos.
        Bom, agora peço que o leitor segure o fôlego, pois iremos conferir uma análise ainda maior que a primeira: vejamos a análise feita pelo youtuber Peter Jordan, do canal Ei Nerd: "Por que GTA: San Andreas é o melhor?" Garanto que a leitura vale a pena.
        A franquia GTA, como um todo, é uma das franquias mais populares do mundo dos games; e dentro dessa franquia, o GTA: San Andreas é o favorito de uma parcela gigantesca dos fãs. GTA V pode até estar no topo das paradas, não só da franquia GTA, mas também dos games de maneira geral; ele e Minecraft competem, brigando pelo topo da lista dos jogos mais vendidos e mais influentes na história da indústria. Mas, antes desse monstro (GTA V) ser lançado, o GTA favorito da maioria da galera era o GTA: San Andreas.
        Quando GTA: SA foi lançado, os maiores exemplos de jogos de mundo aberto eram justamente os games anteriores da franquia: GTA III e GTA Vice City. Os dois são jogos excelentes, são muito bons, têm vibes únicas, extremamente marcantes. Mas o GTA: SA tem um diferencial: ele explora a Califórnia e a lei das ruas. E trouxe uma das temáticas mais envolventes que a franquia já teve: em vez de explorar as máfias, no estilo O Poderoso Chefão ou Scar Face, a gente agora está lidando com gangues, bandidos de rua, drogados, policiais corruptos e racistas, e por aí vai. Isso já chamou a atenção e cativou a galera, que ficou interessada em saber mais da luta da Grove Street para se reerguer.
        Outra coisa que chamou a atenção nesse game foi a variedade de coisas para se fazer. A primeiríssima coisa que está lá disponível para a gente fazer, quando acaba a cena inicial do jogo, é pegar uma bicicleta. Essa foi a primeiríssima vez que a gente pôde pegar um veículo não motorizado no GTA. Parece uma parada simples, mas é a simplicidade fazendo a diferença, porque mostra que eles estão indo mais na intimidade da parada. Eles querem ser mais detalhistas na construção desse mundo. Quando a gente começa a explorar a cidade, descobre várias coisas para se fazer: a gente pode cortar o cabelo, fazer a barba, fazer tatuagem; malhar para ficar estilo saradão, comer para caramba até ficar gordão; ir para a balada, pode namorar... A lista continua... A gente pode trocar de roupa, e não são roupas pré-selecionadas igual ao Vice City; estou falando de ir na loja, entrar no provador, trocar peça por peça... Camisa, calça, tênis, luva, boné, óculos, cordão; o que você quiser, dá para trocar. A gente pode personalizar a aparência do C.J. E tem o diferencial de que cada loja tem peças de roupa diferentes, para deixar mais realista, o que é muito legal. A gente pode trocar de roupa a hora que a gente quiser também; basta voltar para casa e ir para o armário. Para a época, isso é muito top, top demais; poucos games tinham esse nível de personalização. Fora que, pela primeira vez na franquia, o nosso personagem podia nadar [e mergulhar]! Se você só joga os jogos atuais, você não tem noção da diferença que isso fez.
        Outra coisa que é bem legal nesse sentido de ambientação é a opção de comprar casas. Tem casas compráveis espalhadas por todo o mapa do jogo. Basta a gente reunir grana e comprar. A sensação de você conseguir comprar aquela casa na praia, ou aquela mansão nas montanhas, é priceless (sem preço); só quem jogou vai entender o que estou falando agora.
        Ah, e tem também os veículos. GTA: SA tinha a maior quantidade de veículos da franquia até então, até aquele momento. A gente podia pilotar carro, moto, caminhão, bicicleta, jetski, barco, lancha, avião, jato, helicóptero, veículos de fazenda, tanques de guerra e até mochila a jato, a JetPack! O cheat (código) do JetPack é bom demais. Tinha até como pular de paraquedas. Mas assim, o cheat do JetPack... Eu não me lembro de ter encontrado qualquer JetPack em qualquer outro jogo. É muito satisfatório estar lá, voando pela cidade... É demais.
        E o C.J. é outro motivo para o pessoal amar esse game. Talvez o personagem mais amado da história dos games; pelo menos para muita gente. Carl Johnson é um dos protagonistas mais carismáticos da franquia, se não for o mais carismático de todos. Um cara em conflito entre mudar de vida e viver as raízes dele. Ele é perfeito, ele é um gangster, metido em paradas erradas direto. Quando tem que matar, ele mata. Comete vários crimes durante a história, mas ele é gente boa para caramba. E, acompanhando a história dele, a gente se sente próximo do personagem.
        Mas não é só o C.J. que ganhou a simpatia da galera. O elenco todo do GTA:SA é sensacional: Sweet e a devoção dele pela gangue; o traidor do Big Smoke; o pilantra safado do Keplin; o drogadão do The Truth; o chinês cego Use; a maluca da Catalina e assim por diante.
        Uma coisa que GTA:SA tem de melhor que os outros títulos da franquia é o mapa. Dessa vez, a gente não está só mais numa cidade; estamos num estado. No GTA III e no Vice City, vamos liberando cenários conforme passamos nas missões. Mas essas áreas liberadas são apenas novas regiões da mesma cidade em que o jogo se passa. No GTA:SA, também temos áreas que liberamos com o tempo, mas essas áreas são cidades inteiras. Começamos o jogo com Los Santos, depois vamos para San Fierro e, após isso, para Las Venturas; isso fora a área rural, que também podemos visitar. Nossa, lembrando, é bom demais. Ou seja, galera, esse é o jogo com a maior variação de cenários de toda a franquia. Eu diria que tem mais variação até do que GTA V, mesmo com o mapa bem menor.
        E o mais louco é que GTA:SA foi o único GTA que fez isso até hoje. Depois dele, veio o GTA IV e as expansões deste, que se passam só em Liberty City; e depois veio o GTA V e o GTA Online, que se passam só em Los Santos e nos arredores ali. GTA:SA é o único GTA onde podemos ir e vir à vontade em três cidades grandes. Isso até hoje é um grande diferencial.
        GTA:SA tem uma vibe que poucos jogos trazem. Além da ambientação top, que é a Califórnia, tem também a questão do jogo se passar nos anos '90. Assim como um dos maiores charmes do Vice City é se passar nos anos '80, um dos maiores do San Andreas é se passar nos anos '90. Os carros, as músicas, os estilos de roupa: tudo remete aos anos '90.
        Sobre a gameplay, nem tenho muito o que falar. O jogo tem praticamente as mesmas características dos jogos anteriores, o que significa que só mantiveram o que já era bom. E olha que nem falei das coisas que os próprios fãs fizeram com o jogo. Quem não lembra dos MODs de GTA:SA? Os famosos GTA: Rio de Janeiro e GTA: São Paulo? Ou os mais loucos, como o GTA: Dragon Ball?
        Não é à toa que GTA: San Andreas é considerado o melhor GTA de todos. Mesmo com a nova geração chegando poucos anos depois, esse jogo continua marcado. Até porque a Rockstar optou por outra pegada no GTA IV, e por causa disso, vários elementos que fizeram os fãs amarem GTA:SA foram tirados do novo jogo. A galera reclamou e boa parte do que foi tirado no GTA IV foi colocada de volta no GTA V. Aliás, o GTA V é quase que uma sequência direta do GTA:SA, já que é a mesma ambientação e aborda temas parecidos. Mesmo tendo universos diferentes, vemos que são meio parecidos.
        Mas mesmo GTA V tendo quase tudo que o GTA:SA tinha e vendendo muito, mas muito mesmo, GTA:SA ainda é o favorito de muita gente. Michael, Franklin e Trevor não conseguiram superar o carisma do C.J. Estou certo ou não? E a história dos três bandidos desleixados não cativou tanto quanto a história da Grove Street Family. Muita gente deve discordar disso, mas GTA:SA é um dos, senão o melhor GTA, e o mais importante da franquia. Ele virou padrão de qualidade. E mesmo o GTA V melhorando praticamente tudo que o San Andreas trouxe, isso não tirou o brilho deste, que é um dos jogos mais brilhantes da história dos videogames.
         Para concluir, precisamos falar sobre as rádios. Na história mundial dos videogames, a única coisa que pode competir com a experiência musical de GTA:SA é a trilha sonora da trilogia Donkey Kong Country, de Super Nintendo. Fora essa importante exceção, não existe nada que chegue ao nível das músicas das rádios de GTA:SA. A coisa mais épica possível é dirigir por aí, ou mesmo pilotar, seja fazendo missões, seja explorando por diversão, enquanto a rádio colore a atmosfera do jogo com as melhores músicas possíveis.
        Nesse sentido, eu não poderia deixar de exaltar o que eu, particularmente, considero serem as melhores estações das rádios do jogo: a K-DST, que apresenta o ápice do Rock Clássico, e a K-Rose, o puro creme do Country Music americano. São músicas que até hoje estão na minha mente e que, ao ouvir, imediatamente me remetem à época de ouro da minha infância, em que eu passava longas tardes jogando GTA:SA no PlayStation 2 do meu primo.
        Em homenagem a essa obra-prima dos games que é o GTA: San Andreas, tenho dois projetinhos. O primeiro deles é uma playlist no Spotify dedicada a reunir as melhores músicas do GTA:SA, principalmente dessas duas rádios mencionadas acima, mas não apenas. Você pode ouvi-la clicando aqui. E o segundo projeto, já mencionado anteriormente, é o blog em que posto fotografias que faço dentro do jogo, com a câmera, retratando detalhes e ângulos que me inspiram a continuar apreciando e exaltando o legado do jogo, em toda a sua amplitude e atmosfera. Você pode conferir essas fotos clicando aqui.
        Bom, é isso. Com a ajuda dessas maravilhosas análises dos youtubers, acredito ter conseguido abarcar o principal de tudo aquilo que torna GTA:SA um "ponto fora da curva", um marco na história dos jogos. Mas, é claro, você só irá entender tudo isso que estamos dizendo quando jogar – seja pela primeira vez, seja retornando à nostalgia do jogo após muitos anos. E aí, está esperando o quê?

NOTA:
9,5
/10